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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Minha casa me guarda como um abraço

A revista Casa Cláudia - ano 30 publicou um poema lindo, da filósofa Viviane Mosé. Vasculhando minhas revistas antigas me deparei com este linda e sensível descrição de uma casa e não pude deixar de dividir com vocês.
Segue abaixo poema na íntegra:

Minha casa me guarda como um abraço

É preciso fritar o arroz bastante
antes de colocar água fervendo.
E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar junto com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina, por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
que não sobra um canto que não
tenha sido tocado por minhas mãos.
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças na pia.
Não na mesma hora, mas um pouco bastante depois
volto limpando. Assim me faço.
Nos abjetos que me acompanham.

Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
que vão se arrumando em torno de mim.
Eu tenho muitas coisas,
quero dizer, tenho muitas camadas.
Uma camada de livro, outra de sapatos.
Tem a camada de plantas. A toalhas de rostos.
Tenho camadas de cosméticos e adereços.
Uma camada de nomes e coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta
quando o meu próprio me falta.

Cadeiras são meus ossos.
Sapatos são meus braços.
Torneiras são meus poros.
Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo.)

Descanso recostada nas paredes da casa
que me guardam como um abraço.
Me abraço quando e derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo. Com os olhos.
Ou com as mãos. Minha casa tem silêncios
que às vezes ouço. Em meu corpo
tem silêncios maiores ainda.
Que as vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço.

Ando com manias de lustra-móveis e ceras líquidas.
Olho um por um nas prateleiras. Sinto a textura e o cheiro.
Espalhando um pouco entre os dedos. Prefiro os de textura fina
e que cheiram a jasmim (gosto mais do aroma floral mas a palavra jasmim é tão bonita).
Levo todos pra casa e vou espalhando. Primeiro o assoalho.
Considero todos os cantos. Depois os móveis
com as mãos vou tateando. Um por um.
Em reverência.
Ao que me sustenta em desamparo.

As casas me sustentam em mim. Por isso as quero em detalhes.
Bem cuidadas e cheias de espaço onde novas coisas se deitam.
Costumo encontrar tesouros escondidos na dobras das colchas.
E nas louças sujas da pia. Tenho muitas janelas.
Que é por onde o sol e a chuva me visitam.
O vento aqui é muito forte.
Às vezes derruba tudo e eu gosto.
Mas aqui também cabem pessoas.
Tem sempre lugar pra pessoas em mim.

Um comentário:

Paoli disse...

Paulo, amei o seu BLOG, vou voltar mais vezes...
A casa da gente tem que ter o gosto do abraço...
Acolher,
partilhar,
aceitar,
impulsionar as nossas asas...